14/12/2014

António Zambujo - "Pica do 7"

De manhã cedinho
Eu salto do ninho e vou para a paragem
De bandolete à espera do sete
mas não pela viagem

Eu bem que não queria
mas um certo dia vi-o passar
E o meu peito céptico
por um pica de eléctrico voltou a sonhar

A cada repique
que soa do clique de aquele alicate
Num modo frenético
o peito céptico toca a rebate

Se o trem descarrila o povo refila e eu fico num sino
Porque um mero trajecto no meu caso concreto é já o destino

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
Quando o sete me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá

Que triste fadário e que itinerário tão infeliz
Cruzar meu horário com o de um funcionário de um trem da carris

Se eu lhe perguntasse
se tem livre passe para o peito de alguém
Vá-se lá saber talvez eu lhe oblitere o peito também

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
Quando o sete me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
Quando o sete me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá
Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá


Letra de Miguel Araújo

27/11/2014

Diabo na Cruz - "Armário da Glória"

No foyer do Maria Matos
Dei contigo a cortar no Malhadinhas
Não te basta gozar o meu bigode
E citar Paul Auster quando calças Josefinas

"Tenho um fraco por saloios como tu"
Confessas a tentar ter pena minha
Já no teu loft, entre o gin e o tofu
Um retrato do Andy Warhol a mirar-me da cozinha

Glória Margarida, o que é que andas a esconder?
Tu que gramas tudo o que é fixe alguem gramar
Glória Margarida, estou mortinho por escrever
A canção do teu armário

Queres levar-me ao Hansastudio em Berlim
E tirar fotos, escorregar pelo salão
Quem sabe, estudar Brian Eno
Sim, porque eu se é Alemanha estudo Sérgio Conceição

Queres um mundo pra vocês outro pra nós
Que contemple um curral de onde viemos
Só que eu e tu tivemos os mesmos avós
Desce abaixo deste ramo solitário e bailemos

Glória Margarida, o que é que andas a esconder?
Tu que gramas tudo o que é fixe alguem gramar
Glória Margarida, estou mortinho por escrever
A canção do teu armário

Glória Margarida, o que tens tu a esconder?
Tu que sabes tudo o que é fixe alguem gostar
Glória Margarida, olha já estou a escrever
A canção do teu armário

Glória Margarida, onde é que tu te vais esconder?
Quando o povo se unir para cantar
Glória Margarida, fartinho de saber
A canção do teu armário

Glória Margarida, saberás reconhecer
Tu que topas o que está pra rebentar
Glória Margarida, olha acaba de nascer
A canção do teu armário

12/11/2014

Diabo na Cruz - "Moça Esquiva"

Ao Copenhaga
Fui abraçar-te
Choraste por embaraçar-te
Areal da praia
Pedi noivado
Melhor teria sido
Ter-te atraiçoado

Riba arriba bate bate
Como trovoada
Teu coração de donzela alvoraçada
Refilas, desfilas
Afias os meus sonhos
Fazes-me sorrir e aos outros
Andar tristonhos

Quando subo queres descer
Mal eu desço só voar
Roubo um beijo a correr
Toca a enxotar
Agarrar é às escuras
Navegar só à deriva
Ai Jesus, que moça esquiva

Campo relvado
Vou demonstrar-te
Apostas que eu só sei sujar-me
Elogiei-te, estás ressentida
Não guardas um sorriso
Pra nada que eu te diga

Tique no isqueiro
Tique taque na queimada
Pareces porta-voz da massa indignada
Chamo o teu nome
Tu avanças e recusas
Não há quem chegue a ti,
Farol de Lampedusa

Quando subo queres descer
Mal eu desço só voar
Roubo um beijo a correr
Toca a enxotar
Agarrar é às escuras
Navegar só à deriva
Ai Jesus, que moça esquiva

Quando subo queres descer
Mal eu desço só voar
Roubo um beijo a correr
Toca a enxotar
Agarrar é às escuras
Navegar só à deriva
Ai Jesus, que moça esquiva

Quando é para decidir
Nunca sirvo para ajudar
Se eu começo a divertir-me
Oiço-te a bufar
Se te amparo a cintura
Tu sacodes-me lasciva
Ai Jesus, que moça esquiva

20/10/2014

Diabo na Cruz - "Ganhar o Dia"

Queres saber como eu sou
Como é esta geração
Quem não quer que o diabo fale
Não lhe dê ocasião
Trago pele de cordeiro
E memória de Elefante
O meu trunfo é o triunfo
O motivo, ai o motivo é gigante

Andei nas passas do Algarve
Mas fui salvo como por magia
A minha vez chegou
O céu desanuviou
Hoje os astros alinharam
E eu estou pronto pra ganhar o dia
Pronto pra ganhar o dia
Pronto pra me consolar
E ninguém ninguém ninguém
Ninguém me pode incomodar

Rapariga Rosa punk
Põe o pé na junqueirinha
Fosse o punk menos estanque
Acredita que tu, Rosa, eras minha
Vá, sai da Rua do Salitre
Vem por esse mundo fora
Traz a carta que tem escrito:
Tradição é agora, agora, agora

Disseram que era um caso perdido
É, explicaram-te o destino que eu teria
Por pouco desisti
Mas ‘inda bem que não cedi
Acabou-se o mau bocado
E eu estou pronto pra ganhar o dia
Pronto pra ganhar o dia
Pronto pra me consolar
E ninguém ninguém ninguém
Ninguém me pode incomodar

Anos de insónia a esboçar
Um vôo desorientado
De zangão perdido da colmeia
Tornam o pingo de mel
Em taça cheia

Venha lá ao bailarico
Pôr a pedra no rescaldo
Quem tem jeito de Porfirio
Quem se esfalfa mas não é nenhum Ronaldo
Eu vou na rebarbadora
Que trabalha todo ano
Levo malhas e batidas
De fazer rodopiar um transmontano

É bom também ter contrariedades
Sem nunca perder a fantasia
Tentar
Falhar
Sofrer
Perder um tempo a duvidar

Dobrar o empenho e a humildade
É, pintar cada momento de alegria
Ver que a chuva parou
O melro assobiou
Vá, deixem lá contagiar-se
Que eu estou pronto pra ganhar o dia
Pronto pra ganhar o dia
Pronto pra ganhar o dia
Pronto pra ganhar o dia
Pronto pra me consolar
E ninguém ninguém ninguém
Ninguém me pode incomodar
[Actualizado a 03-11-2014]

25/09/2014

Diabo na Cruz - "Siga a Rusga"

Quem deu pé e fé dispôs-se
Quem tem pernas esperneou
Quem viu corda ao pescoço
Se é safado se safou
Quem tem escola foi a Sagres
Quem se sente pinta a manta
Quem não bebe e é borracho
Muito raro se alevanta

Quem viu bem mudou de lado
Quem foi mal repiorou
Quem tem cá protectorado
Não fez fila nem pagou
Quem teve aula de bandido
Leva a frade luva branca
Quem viu cabras na pastagem
Lhes cantasse a moda franca

Siga a rusga
Siga a rusga, fé e ouro
Siga a rusga que é pecado
Siga a rusga, ó senhor
Siga a rusga se é refém
Siga a rusga, baixe lá
Siga a rusga, malhe o
ferro onde a volta dá
Siga, siga agora
Siga, siga a rusga agora
Siga a rusga, foi bem boa a nossa hora

Quem fez caso não descase
Quem tem queda se quedou
Quem sumiu não se alheasse
Deve ao estranho que aportou

Quem correu raia pisada
Hoje toma a carreteira
Bota aí a champanhada
Que hoje é noite de sexta-feira

Siga a rusga
Siga a rusga, fé e ouro
Siga a rusga que é pecado
Siga a rusga, ó senhor
Siga a rusga se é refém
Siga a rusga, baixe lá
Siga a rusga, malhe o
ferro onde a volta dá
Siga, siga agora
Siga, siga a rusga agora
Siga a rusga, foi bem boa a nossa hora